Estandarte
Ana Isabel Rocha Macedo

Vitória da Conquista - Bendito o homem que constrói poemas, pois bendito é aquele que enxerta de poesia a palavra. Benditos todos os que em tempo de miséria, de medo, de luta de guerra e de morte revolve a alma, ressuscitam a poesia e parem o poema. Em "Ressurreição", Sérgio Mattos diz:

"A noite banhava-se
em água estéril!
O tempo estava calado
entre os caminhos cruzados.
De repente, fui pedras.
Também fui criança.
Era como uma balada
e a infância ressuscitava...".

Bendito seja você, Sérgio Mattos, que, como disse o poeta Dórea Soares, é "porta-estandarte do Mundo, porta-retrato das belezas, dos pensares, das tristezas da Humanidade, abrindo-se para as alturas às entranhas da natureza do ser que raciocina e transforma a razão".

Bendito seja este homem, porque no poeta "A alma, assustada e temerosa, cala-se, tudo se afasta, faz-se uma grande tranqüilidade e o incognocível surge em silêncio." – palavras do grande Rilke.

E bendito seja, também, porque é Sérgio Mattos quem diz que : "o poeta é o vigia do tempo."
Mas não me pediram para falar sobre o poeta. Pediram-se para apresentar Estandarte, livro que está sendo lançado hoje. E aí é que a tarefa tornou-se difícil. Fosse apenas um compêndio de poemas, poderia eu acasalar minha fala com o pouco que sei da Teoria Literária e daria conta do recado: Falaria da forma. Porém, recebi um livro que não é só de poemas. É um mar de poesia. E foi sobre este livro que pediram para falar. E sobre a poesia não se fala, ela é como o amor, na definição do próprio poeta: "O amor não se define, se sente."

Por isso, amigos, dêem passagem à poesia de Sérgio Mattos. Perdão! Não mais de Sérgio Mattos. Ela, a poesia do Estandarte, agora é minha., é sua, é do outro. Não mais só do seu criador. Já foi partilhada, o que é um trâmite também poético. Permitam que os vários "Sérgios" que (co)existem no poeta Sérgio Mattos se revelem. Dêem voz ao homem lírico, ao homem erótico, ao homem solidão, ao homem convívio, ao homem político, ao homem consciência.
"Minha Arte" – de Sérgio Mattos:

"O poema
é a arte nata.

Artesanato.
O poema
é arte, de fato.
Artefato.
A poesia
é meu estandarte.
Minha arma, minha arte.

Passo a passo, a faço,
procurando ocupar espaços.
registrando o dia-a-dia,
sem dogmatismo ou maneirismo,
sem máscara ou palhaços.
Meus versos
são lançados,
visando a todos atingir,
como se fossem estilhaços
cheios de verdade e emoção".



Ana Isabel Rocha Macedo, professora da UESB-Vitória da Conquista.
Artigo publicado em A TARDE do dia 23 de agosto de 1996.