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Controle dos Meios de Comunicação
Telmo Padilha
Itabuna
Não concordo com uma só palavra do que dizes,
mas defenderei até à morte o direito de o dizeres.
Não sei de melhor definição sobre o direito
que deveria ser assegurado aos jornalistas e aos órgãos
de comunicação de se expressarem livremente.
Escrevi deveria porque na verdade esse direito não
lhes é totalmente facultado, principalmente nos países
subdesenvolvidos. O Brasil não é exceção.
Em face desta afirmação,
o leitor desatento deve estar pensando: "Ele diz isto
porque é jornalista...". Não, não
é só porque sou jornalista; porque há
jornalistas e jornalistas; Jornais e jornais. O mau jornalista
acaba por perder a credibilidade e isto significa o seu alijamento
natural da classe.
São numerosos os exemplos. O mau
jornal pode até prosperar financeiramente, mas seu
público acabará por descobrir suas safadezas.
E, porque a mentira sempre andará
de cócoras, é que a liberdade de expressão
nunca deve ser proibida ao homem, sejam quais forem as circunstâncias.
Engana-se a alguém por algum tempo, mas não
por todo o tempo. Os governo ditatoriais não duram
porque são mentirosos na medida em que não aceitam
ser julgados. E sabemos do que é capaz do poder absoluto,
quantos justos e quantos inocentes foram sacrificados para
que ele pudesse resistir.
Mas não se avalia a importância
da liberdade de imprensa, da liberdade de comunicação,
de informação e de opinião apenas nos
registros totalitários. Com um mínimo de cultura
pode-se verificar o quanto ela é vital para a humanidade,
para a sua evolução. O primeiro jornal brasileiro,
o "Correio Brasiliense", era impresso em Londres
para fugir à censura. Isso acabou?
"Desde o Brasil-Colônia já
se passaram muitos anos, mas o espectro da censura permaneceu
entre nós, através de governos civis e militares
e, hoje, apesar da Nova Constituição, o jornalismo
brasileiro não pode ainda comemorar ou declarar que
vive num clima de completa liberdade". A afirmação
é de Sérgio Mattos, um dos mais competentes
profissionais do jornalismo brasileiro, atualmente exercendo
a editora dos suplementos A TARDE Municípios e A TARDE
Rural, do jornal A TARDE.
Em derredor desta afirmação,
que pode soar insólita para os que não são
do ramo ou acham que tudo são flores nos jardins do
presidente Fernando Henrique, Sérgio Mattos, que também
é poeta dos melhores da Bahia contemporânea,
escreveu um livro que é ao mesmo tempo um libelo e
uma advertência para os brasileiros de todas as classes
e de todos os credos; um livro que aprisiona, numa síntese
honesta e competente, toda a problemática da censura
no Brasil; um livro que não pode deixar de ser lido
por quantos queiram saber o que é censura e quais as
suas conseqüências para um país que se quer
firmar como povo e como nação.
"Embora não exista mais a
censura prévia assegura Sérgio Mattos
-, a atual Lei de Imprensa estabelece limites, uma vez que,
entre outras coisas, não permite a exceção
da verdade contra o presidente da República e outros
ocupantes de altos cargos, violando, assim a liberdade de
expressão, além de contrariar diretamente a
Constituição. Exemplo disso foi o processo movido,
em 1991, pelo então presidente Collor de Mello contra
Otávio Frias Filho, da Folha de S. Paulo,
sem que fosse admitida a prova da verdade".
O fato mais grave, todavia, não
é percebido pelo grande público que lê
jornal: o controle do Estado sobre a indústria cultural
brasileira, a dependência dos veículos de massa
dos subsídios e isenções oficiais. Por
que? Porque os nossos veículos de massa se constituem,
basicamente, em empresas vinculadas à iniciativa privada,
"cuja propriedade está concentrada nas mãos
de uns poucos grupos, apesar de o Estado também possuir
alguns veículos de mídia impressa e eletrônica".
Sediados em áreas urbanas, os órgãos
de massa se dirigem às populações urbanas,
são orientados pelo lucro e funcionam sob o controle
direto e indireto da legislação oficial. Isto
explica tudo.
Se ainda usássemos chapéu,
eu tiraria o meu para saudar, numa reverência respeitosa,
a Sérgio Mattos, e o faria com a consciência
tranqüila de estar saudando um dos mais completos e sérios
jornalistas brasileiros, talvez um tanto quixotesco para os
que adotaram a legenda atribuída a De Gaulle de que
o Brasil não é um país sério;
ou de que é o país do carnaval, do futebol,
da sacanagem, do levar-vantagemem-tudo, do filósofo
aposentado Gerson. E agora também das novelas de televisão.
Um dia, num dos meus momentos de irada honestidade profissional,
eu disse a um leitor que jurava de pés juntos que certa
notícia que acabara de ler era a expressão da
verdade: "Quando você quiser a verdade, não
leia os jornais, vá à redação
dos jornais, de onde a verdade raramente sai, porque ela nem
sempre convém ao interesse dos seus proprietários".
Eu quis alertar à pessoa sobre a circunstância
de que jornal e por extensão todos os órgãos
de comunicação de massa é indústria,
e que sem faturamento não existe indústria,
e que a indústria jornalística, ainda que diferente
sob alguns aspectos, não o é quando depende
dos subsídios e isenções oficiais
Para que fosse de outro modo, seria necessário
que os órgãos de comunicação se
distanciassem o mais possível do poder público
e se aliassem unicamente aos seus leitores, ouvintes ou telespectadores,
concentrando neles todas as suas atenções independentemente
dos lucros financeiros que isso pudesse implicar.
Um sonho quixotesco? Talvez. Nos Estados
Unidos e em alguns países da Europa alguns órgãos
de comunicação de massa conseguem uma credibilidade
quase total. Mas dirão que são países
mais cultos, onde não é fácil vender
gato por lebre. Mas poderíamos pelos menos
vender pombos por lebre.
Viram quantas ilações se
podem extrair de "O Controle dos Meios de Comunicação",
de Sérgio Mattos?
Um livro danado de bom, como diria Mário
de Andrade, se ainda respirássemos o clima de iluminismo
de 1922... Um livro para ler e guardar, e reler, e dirimir
dúvidas, e conferir a verdade aparente com a real verdade
brasileira que perdoem-me jogar areia no brinquedo
para não é das melhores, inclusive para
os jornalistas...
Telmo Padilha é
Jornalista, Escritor e Poeta.
Artigo publicado com o título de "Tirando o chapéu
para um livro",
no jornal A Tarde do dia 15 de novembro de 1996.
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