O Controle dos Meios de Comunicação
Emiliano José

O lançamento do livro O Controle dos Meios de Comunicação, do jornalista Sérgio Mattos (Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia, 1996), cujo objetivo principal são os mecanismos de controle dos meios de comunicação, envolvendo tanto os instrumentos de coerção políticos quanto econômicos, situando inclusive aqueles momentos de censura policial propriamente dita, vem enriquecer a bibliografia de uma área ainda carente de estudos no Brasil.

Mattos, que também é professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, vem produzindo nessa direção desde os seus tempos de estudante na Universidade do Texas, em Austin, nos EUA, onde fez doutorado. Recentemente, publicou Um Perfil da TV Brasileira: 40 anos de história(1950-1990) e Censura de Guerra. Afora sua produção para o estudo do jornalismo, já tem uma vasta obra poética.

Neste livro, Mattos procura acentuar o papel exercido pelo Estado no controle dos meios de comunicação e como a censura exercida durante a ditadura deixou "irrecuperáveis seqüelas na imprensa brasileira, abalando sua credibilidade". No quadro atual, o fato de o Estado brasileiro ser o maior anunciante publicitário do País, tornaria a imprensa uma espécie de refém das autoridades brasileiras.

Indiscutivelmente, o livro abre portas para a discussão em torno do controle dos meios de comunicação, mas o autor certamente sabe que se trata de um estudo aligeirado. O leitor, ao final, cobra um maior aprofundamento do assunto. E quem conhece Sérgio Mattos sabe que ele poderia ir muito além. Quem sabe, na seqüência de suas pesquisas, poderá vir a satisfazer essa exigência dos seus leitores.

Uma das questões a serem problematizadas, e cuja insuficiência é visível, é a da relação entre a imprensa brasileira e o Estado. Na visão expressa por Mattos, haveria uma espécie de Muro de Berlim a separar o Estado e os meios de comunicação no Brasil, como se aquele fosse o algoz destes. Não há, em nenhum momento, a discussão sobre uma evidente conivência – poderíamos dizer até intimidade – entre aqueles dois atores.

Se nos reportarmos, por exemplo, ao período ditatorial, vamos observar uma quase cumplicidade entre os meios de comunicação e a ditadura, indiscutivelmente. A ditadura tinha o mecanismo da censura, utilizou-o em alguns momentos contra alguns órgãos da grande imprensa, mas para o seu domínio durante mais de 20 anos contou sobretudo com a complacência dos meios de comunicação, havendo momentos até de uma colaboração ativa, como conta o jornalista Paolo Marconi, em livro citado algumas vezes por Mattos. Editores de alguns grandes jornais e revistas chegavam a se reunir com o mago da ditadura, Golbery do Couto e Silva, para traçar diretrizes de comportamento.

Isso, evidentemente, não elimina divergências entre a ditadura e os meios de comunicação e nem pode obscurecer a violência da censura, mas tal comportamento precisa ficar claro para que não se assuma a atitude de eliminar a responsabilidade daqueles meios naquela conjuntura política, muitos dos quais apoiaram abertamente o Golpe de 64, no caso, aqui, tantos jornais quanto, e principalmente, a Rede Globo, cujo apoio aos militares foi sempre declarado e sem meios termos. Para dizer de outra forma, os negócios dos meios de comunicação iam muito bem durante a ditadura, e eles não tinham qualquer interesse em prejudicá-los. É fácil compreender isso quando se lembra que os grandes meios de comunicação nunca quiseram colocar-se ao lado da imprensa alternativa, esta sim vítima de uma censura cruel e sempre presente. E a grande imprensa não se solidarizava com ela, porque os seus interesses eram outros.

Está corretíssima a postulação de Mattos: é essencial a existência de uma imprensa livre, Marx, lá pelos idos de meados do século XIX, já dizia que uma imprensa livre ruim era sempre muito melhor do que uma boa imprensa censurada, se é que isso é possível na realidade. É necessário, no entanto, ir mais fundo na questão da liberdade de imprensa para que ela não seja reduzida à liberdade dos proprietários dos meios de comunicação, cuja orientação, mesmo em conjunturas democráticas, privilegia os seus interesses econômicos e políticos, o que faz com que inúmeras demandas públicas permaneçam submersas, ou só venham à tona por força de muita luta dos setores subalternos da sociedade.


Emiliano José, jornalista, escritor e professor
da Facom-UFBa, mestre em comunicação.
Resenha publicada em A TARDE Cultural, do dia 25 de maio de 1996,
sob o título de "Quanto mais livre melhor".