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O
Controle dos Meios de Comunicação
Elieser César
Em um momento que a liberdade de imprensa
se vê ameaçada por dois artigos em discussão
no Congresso Nacional, nada mais oportuno que o livro O Controle
dos Meios de Comunicação que o jornalista Sérgio
Mattos lança amanhã, na Livraria da EGBA, no
Pelourinho. O livro analisa o desenvolvimento dois meios de
comunicação de massa no Brasil, considerando
os aspectos políticos, econômicos e sociais.
O poeta, jornalista e professor adjunto
da Faculdade de Comunicação da Universidade
Federal da Bahia, Sérgio Mattos tem a vitalidade e
a inquietação criativa de um agitador cultural.
Depois de publicar vários livros de poesia e comemorar
seus 30 anos no gênero com uma exposição
de poemas-cartazes, Sérgio lança agora um livro
O Controle dos Meios de Comunicação
não apenas oportuno, mas necessário num período
em que a Liberdade de Imprensa se vê ameaçada
por dois artigos draconianos, em discussão no Congresso.
O primeiro estabelece pena de prisão
para os chamados "crimes de opinião" (injúria,
calúnia e difamação), em lugar de serviços
prestados à comunidade. O segundo dispositivo penaliza
as empresas jornalísticas com multas de até
20 por cento do faturamento bruto que podem inviabilizar o
funcionamento da maioria delas.
Por isso, chega no momento certo, para
estudo e reflexão, o livro que Sérgio Mattos
lança, nesta quinta-feira(dia 23), a partir das 18
horas, na Livraria da Empresa Gráfica da Bahia, no
Largo do Pelourinho. Com o selo da Editora da UFBA (EDUFBA),
o livro analisa o desenvolvimento dos meios de comunicação
de massa no Brasil, "considerando os aspectos econômico,
político e social dentro dos quais esse crescimento
se processou".
Em seu estudo, respaldado por farto material
de pesquisa, Sérgio identifica ainda alguns instrumentos
"através dos quais o Estado tem exercido seu controle
sobre o sistema brasileiro de comunicação, desde
sua implantação.
Um desses instrumentos e o benefício
com empréstimos, subsídios e isenção
de impostos, como importação de papel jornal
e modernos equipamentos de rádio e TV. Outro é
a oferta da publicidade oficial. Naturalmente são beneficiados
com essas concessões "os veículos que adotam
uma postura amigável e de sustentação
às ações do governo". "Outros,
que têm assumido uma postura crítica perante
as políticas governamentais, não têm recebido
o mesmo tratamento", diferencia Sérgio.
O autor dá um exemplo em 1992,
a título de financiamento, a Rede Globo de Televisão
foi contemplada com um empréstimo da Caixa Econômica
Federal, a juros subsidiados de 12 por cento ao ano, numa
época em que as taxas de juros oscilavam de 25 a 30
por cento". Foi o agradecimento do então presidente
Fernando Collor para a emissora que o projetou nacionalmente
como "caçador de marajás", encampou
sua campanha, manipulou, vergonhosamente, em seu principal
telejornal, o compacto de um debate travado, às vésperas
do segundo turno, entre Collor e Lula, e sustentou seu governo
corrupto até perceber que o impeachment era iminente.
Logo na introdução, o jornalista
faz sua defesa intransigente da Liberdade de Imprensa, "imprescindível,
não só para jornalistas, como também
para todas as camadas da população". Sérgio
Mattos, contudo reconhece que esta liberdade, pelo menos no
Brasil, "sempre esteve sob ameaça da censura,
seja econômica, política ou policial".
O autor de O Controle dos Meios de Comunicação
sublinha que as emissoras de rádio e TV estão
ainda mais vulneráveis à censura político-econômico
do governo, por operar através de concessão
de licença. "Até a Constituição
de 1988, essas licenças estiveram diretamente sobre
o controle do governo, mas a atual Carta Magna estabeleceu
que o ato de outorga ou renovação da concessão
de uma emissora seja submetido a aprovação do
Congresso e não apenas da decisão pessoal de
quem esteja na presidência da República",
escreve Sérgio Mattos.
De importância para jornalistas,
publicitários, professores universitários e
estudantes de comunicação, enfim para toda a
gama de "formadores de opinião", o livro
de Sérgio focaliza também o desenvolvimento
dos meios de comunicação no Brasil. Mostra como
a ditadura militar incentivou o crescimento da TV, como instrumento
de propaganda do regime e como os empresários embarcaram
nesse jogo de interesses. "A televisão e o desenvolvimento
nacional devem ser sinônimos", aquiesceu, em 1981,
o presidente da Rede Bandeirantes, João Saad (página
59).
Mereceu registro alguns dados levantados
pelo professor e jornalista. A circulação diária
de jornais no Brasil atingiu, em 1994, 5,9 milhões
de exemplares, o que significa 38,2 exemplares por mil habitantes.
O Brasil ocupa hoje o segundo lugar do mundo em estações
de rádio em operação. Em 1992 era apenas
duas estações do gênero, 1.069 em 1964,
1.550, em 1981 e 2.938 em fevereiro do ano passado(1995).
Em 1994, havia 237 emissoras comerciais
de TV e vinte públicas (educativas), cobrindo todo
o território nacional. A Rede Globo hoje cobre 99,84
por cento do território
nacional, com seu sinal chegando a 4.484
municípios. Sérgio Mattos prevê, no livro,
que até o final desta década, a influência
da TV convencional diminuirá, com a entrada em operação
da TV a cabo.
"A lei da TV a cabo surge como uma
das mais avançadas e democráticas do mundo,
abrindo perspectivas inéditas para o exercício
da cidadania, além de gerar uma expansão de
mercado para profissionais da área de comunicação
social", vislumbra o jornalista e professor. Sérgio
utiliza como epígrafe em suas conclusões uma
reflexão do jornalista Cláudio Abramo (já
falecido) sobre a ética.
"Onde entra a ética? No jornalismo,
o limite entre o profissional como cidadão e como trabalhador
é o mesmo que existe em qualquer outra profissão.
O jornalista não tem ética própria. Isso
é um mito. A ética do jornalista é a
ética do cidadão. O que é ruim para o
cidadão é ruim para o jornalista". Sábia
reflexão do saudoso Abramo, que convém não
esquecer. Para o bem do jornalista.
Elieser César,
jornalista, poeta e escritor.
Resenha publicada na Tribuna da Bahia, de 22 de maio
de 1996, sob o título de "Livro mostra a imprensa
sob ameaça".
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