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Já
não canto, choro
Clóvis Lima
A poesia, companheira
inseparável do poeta, não o abandona, esteja
ele onde estiver ou vá por onde for. É como
a sombra, que jamais se cansa de acompanhar-nos os passos,
não apenas enquanto perambulamos pela vida, uma vez
que, em seus braços de treva, nos conduz para muito
mais longe. Não sabemos se a poesia dispensa tamanha
dedicação aos seus amantes. Não sei,
nem por certo o saberá Sérgio Mattos, o poeta
que nos manda um livro de versos já da capital do Texas,
em cuja universidade acaba de fazer um mestrado no Departamento
de Rádio Televisão e Filme, tendo apresentado,
após um curso eficiente, a tese que versa sobre o desenvolvimento
da televisão do Brasil.
Este assunto, que tanto
se afasta do romantismo, não conseguiu esmaecer-lhe
o estro. Ao contrário, parece até, que o incentiva,
posto que os seus versos recentes superam os iniciais, embora
muita simpatia despertassem no meio universitário baiano.
Isto porque a saudade, sorrateira e leve, veio intrometer-se
na sua arte moderna. Pois, vista e sentida de longe, por milagre,
talvez, dos intelsats, é de supor que a saudade deixasse,
neste caso, de ser um sentimento introspectivo para aliar-se
à imagem, e, assim, mais persuasiva, influísse
na sua inspiração. Vai daí o seu novo
livro que enfeixa poemas compostos naquele meio distante ao
seu ambiente inspirador. Pouco importa que os houvesse escrito
em inglês, pois não faltou a admiração
de Alberto G. Bork, um escritor e tradutor mexicano, que atentasse
nas suas páginas com o grato propósito de levar
o poeta para o encontro de suas origens, do seu meio e do
seu povo. E ele que, a princípio, se lamentava, amargamente
I No Longer Sing, I Cry, já nos diz com certa doçura
nas palavras Já Não Canto, Choro... Pois não
há tantas lágrimas assim nestes poemas que nos
recordam o jovem autor de , se bem que um tanto mesclado dessa
tristeza que, à distância dos pagos, nos alcança
e prende, a ponto de tornar-se inútil qualquer tentativa
que se faça para afugentá-la. Nem a mocidade
com o ideal de aprofundar-se num estudo sério pode
contra essa amargura responsável pelas tiradas mais
sentidas da nossa poesia romântica, essa poesia que,
em tempo que já vai distante, chegou a nos convencer
que as aves daqui gorjeiam com mais doçura que as aves
de além-mar...
Sem que se expresse de
maneira objetiva, a saudade, intermitente, flui dos versos
de Sérgio Mattos numa sintonia em que o ritmo moderno
não logra interferir.
As coisas estranhas que
vê, essas resultantes do progresso insoptável
dos States, não lhe desviam o pensamento dominado pelos
encantos da cidade que adorou como sua, esta terra morena
que a Baía de Todos os Santos acaricia e enfeita com
as suas ondas mansas e veleiros diferentes,. Na postura daqueles
que vagam pelo mar bravio de sua terra natal.
"Ai que saudade"
(diz ele num poema que rememora um tempo que já se
foi, sem promessa de retorno, com as suas nuanças inesquecíveis),
"Ai que saudade
do tempo do candeeiro,
do namoro da praça da matriz
das brincadeiras de criança
e das morenas da vizinhança.
Poetas e seresteiros
já não cantam a madrugada,
sendo a lua testemunha
e o vilão um companheiro.
Ai que saudade
do amor sem dinheiro
do cheiro forte de terra molhada,
da paquera na Rua Chile
do café society e da cerveja bem gelada"
e ainda debruçado
sobre a provisão de tantas lembranças, ele murmura
um solilóquio:
"De que vale o
progresso
Se já não posso
contemplar as gaivotas
na pedra dos pássaros de minha infância."
E ainda:
"Já não
vejo gaivotas
nas pedras do Rio Vermelho..."
São estes desabafos
do poeta e professor baiano que, na Universidade do Texas,
em Austin, adquiriu e ampliou novos conhecimentos para difundi-los
na Universidade Federal da Bahia, de cujo corpo docente é
integrante querido e admirado.
São estes os desabafos
do poeta e professor baiano que, na universidade do Texas,
em Austin, adquiriu e ampliou novos conhecimentos para difundi-los
na Universidade Federal da Bahia, de cujo corpo docente é
integrante querido e admirado.
Aguarda-se, em dia que
não deve estar distante, o seu retorno à cátedra
de que há tempo se ausentou. E, então, entre
as demais matérias que vai ensinar, por certo incluirá
a saudade de que fez um terníssimo mestrado.
Clóvis Lima, poeta e membro
da Academia de Letras da Bahia.
Artigo publicado em A TARDE sob o título de "Um
poeta baiano em Austin",
no dia 3 de setembro de 1980.
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