Censura de Guerra
Renato Ferreira

Na próxima Quarta-feira, às 18 horas, na livraria Grandes Autores, na Avenida Antônio Carlos Magalhães, o jornalista Sérgio Mattos estará autografando seu mais recente trabalho, Censura de Guerra(da Criméia ao Golfo Pérsico) é um ensaio que foi apresentado durante o V Ciclo de Estudos de Estratégia da ECEME, no Rio e Janeiro. Através dele, S

Sérgio Mattos procura demonstrar a importância do papel que a imprensa pode desempenhar em situações de guerra. Porém, sem descer a fatos históricos inéditos, o autor apresenta um trabalho de pesquisa da mais alta importância para aqueles que desempenham atividades ligadas à comunicação. Mais uma vez, através desse trabalho, se pode concluir que os fatos históricos são ciclicamente repetitivos.

Nas primeiras experiências de participação conjunta entre os tanques e gravadores não foi fácil para os militares compreenderem o poder que a imprensa tinha (tem) junto à opinião pública. Já a partir da Primeira Guerra Mundial, a imprensa começou a sofrer perseguições e bloqueios, pois a descrição dos fatos como estavam acontecendo era prejudicial. Os ingleses tentaram, a todo o custo, impedir o trabalho da imprensa, não só dificultando sua movimentação nos navios de guerra, como utilizando-se sempre de uma máxima: "Essa maldita imprensa não vai fazer coisa alguma até esta guerra acabar".

Sérgio Mattos, no entanto, em seu trabalho consegue demonstrar que o tratamento destinado à imprensa nos momentos de guerra não fica muito distante do que recebe no seu dia-a-dia. Daí a importância desse trabalho para todos os que lidam com a comunicação. Na Segunda Guerra Mundial, enquanto os ingleses decidiram impor um Ministério de Informações com o único objetivo de bloquear e filtrar as notícias, os alemães, por intermédio do Dr. Goebbels buscava credenciar jornalistas correspondentes de guerra neutros. "Estes recebiam privilégios especiais, tais como rações extras, concessão de gasolina e até uma taxa cambial especial para suas respectivas moedas. Com todas essas

Mordomias, os correspondentes acabavam sendo gratos e, nas primeiras etapas da guerra, privilegiaram e enaltecera, as forças germânicas".
Já na Guerra do Golfo Pérsico, Sérgio Mattos informa que dos dois lados campeava a censura. A única matéria não censurada mostrava o bombardeio a um abrigo antiaéreo, quando 400 iraquianos foram mortos. Havia o interesse de Saddam Hussein em mostrar ao mundo a tragédia que seu povo sofria.
Para bem se entender as tentativas de manuseio e de amordaçar a imprensa mostradas nesse trabalho, é importante que se busque colocar os fatos em outras situações, não de guerra, e aí se verá quantos Goebbels existem espalhados por aí.
Finalmente, uma citação que merece ser transcrita: "Sempre senti a falsidade e a hipocrisia daqueles que se proclamavam sem partidarismos e a tolice, para não dizer estupidez, dos editores e leitores de jornal que pedem objetividade ou imparcialidade nos correspondentes de guerra(...) Ao se condenar o partidarismo, rejeitam-se os únicos fatores realmente importantes – a honestidade, a compreensão e a meticulosidade. O leitor tem direito de pedir todos os fatos; não tem nenhum direito é de exigir que um jornalista ou historiador esteja de acordo com ele". Declaração de Herbert Matthews, do New York Times.


Renato Ferreira é Jornalista.
Em resenha intitulada "Goebbels do dia-a-dia",
publicado em A TARDE Cultural, dia 9 de novembro de 1991.