Asas para Amar
Jolivaldo Freitas

Poesia é muito mais que maneirismo ou apropriação indébita das palavras. Poesia, muitos já disseram é alma. Diz-se com propriedade, da pessoa que lida com arte, que pensa, "viaja", elocubra e não tem medo das suas próprias emoções, que tem alma de poeta. O que é alma de poeta? O que é alma? O que é poeta?

Diz-se com falsa propriedade, quando a pessoa é relaxada, foge dos problemas, esquece da vida, que esta pessoa é um poeta. Mas, o que é pessoa? O que é poeta?

A poesia nasceu do amor e da visão lírica (e porque não feminina) do universo. A arte de poeta é a aspiração do novo, do sentimento instantâneo. Existem poetas que derivam e deixam fluir a magia dos seus sentimentos, em completo domínio da palavra, como o vento passando sobre o fino fio da lâmina. Nestes estão aqueles que cuidam e tratam das inquietações da alma como Castro Alves, Telmo Padilha, Fernando César, Ruy Espinheira Filho, Florisvaldo Mattos e Gilfrancisco. E outros poetas trabalham a palavra como quem molda o barro e o transforma em rica cerâmica, que tanto pode ser Fred Souza Castro, João Cabral de Mello Neto, Oscar Santana, Nilton Alecrim, João Carlos Teixeira Gomes, Caetano Veloso, Stalimir Vieira, Antônio Risério, Carlos Pita, Paulo Garcez de Sena, Claudius Portugal.

Mas existem poetas que tratam tudo como uno. O que vale mesmo é a vertigem do sentido. O frisson tem de ser transformado em rápido devaneio e daí é preciso ir para a tinta. E, este tipo de poeta (aliás, todos os poetas o são), é tão apaixonado que não precisa rebuscar para revelar sua essência, É um tipo de poeta até certo ponto maldoso. Pois se revela com tanta clareza que faísca igual carbono maturado, pressionado, bambúrrio, lapidado.

Sérgio Mattos tem nas livrarias o Asas para Amar. Sérgio Mattos é pura alma. É ânima condensada. O livro de Sérgio Mattos é pândora, É pedra de toque. É cabaça nova. É alquimia. Ele é um poeta. Mas o que diabo é um poeta?

Talvez o poeta seja aquele que diz com a maior candura, ódio e pureza d’alma que:

No simétrico caminho da esperança
meu barco rodeia o espaço
e quando a luz escassa
atrai um tempo frio
meu sonho se acende
alheio à própria vida
e me impele, sem artifícios
para teus braços,

Minha doer se dilui
e, enquanto teus dedos deslizam
em meus cabelos
renasce mais uma estrela infinita"

O poema "Caminho da Esperança", que está na página 25 do livro do jornalista Sérgio Mattos foi feito em 1973. E tem um formato atemporal. Tem o sentido amplo do old e do teen. Tem o jeito do seu dono. É a voz do dono.
Poesia não precisa de forma sintática, nem sintética, nem sigmática. Não tem se der emblemática ou ser ícone. Ele tem que ter semelhança com o movimento articulado do corpo animal. Um a fêmea ginu. Um ninja. Uma anaconda. Uma Ana Botafogo. Uma columba. Uma águia. Um Pelé.
A poesia de Sérgio Mattos tem uma valorização de unidade. Pode ser consideradas como expressiva. Ou também elucidativa quando revela os seus sentimentos. O trabalho deste poeta de uma novíssima geração experiente pode ser também visto pelo lado proxêmico, quando tem o seu próprio espaço. Quando busca a relação entre o homem e o universo. Quando entra e sai do buraco negro e joga luz nas trevas.


Jolivaldo Freitas, poeta e escritor.
Em artigo intitulado: "Visão lírica do poeta da magia baiana",
publicado no jornal Bahia Hoje, em 20 de junho de 1995.