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Entrevista
concedida por Sérgio Mattos a Alexandre Costa Reis
e publicada na Revista Online O FOCA, no dia 20 de abril de
1999.
"CENSURA É MITO"
Sérgio
Mattos nasceu em 1948, em Fortaleza, Ceará. Se radicou
na Bahia em 1959 e, literário, lançou em 1968,
junto com Ivan Soares, a famosa revista Experimental, quando
tinha apenas os seus 20 anos de idade. Estudante da Faculdade
de Comunicação da Universidade Federal da Bahia,
começou a atuar como jornalista também em 1968,
participando do grupo que formou o revolucionário jornal
Tribuna da Bahia, de Quintino de Carvalho. Foi de repórter
a editor, cargo que ocupa hoje no jornal A Tarde, com muito
talento e dedicação.
Se formou pela Facom e fez mestrado e doutorado na Universidade
do Texas, em Austin, EUA. Publicou alguns livros técnicos
nos EUA, como "The Development of Communication Policies
Under the Peruvian Military Goverment" e "The Impact
of the 1964 Revolution on Brazilian Television", respectivamente
em 1981 e 1982.Também publicou vários artigos
especializados no Brasil e no exterior. Seu primeiro livro
individual de poesias foi "Nas Teias do Mundo",
publicado em 1973. Em 1977, lançou o seu "O Vígia
do Tempo", traduzido para o inglês, seu segundo
livro individual de poesias. E por gostar tanto de literatura
que Sérgio Mattos, quando presidente do Instituro Baiano
do Livro (IBI), tentou possibitar a instalação
da primeira editora de peso na Bahia, mas não obteve
sucesso.
Mattos
dedicou boa parte de suas pesquisas à televisão
brasileira. A sua tese de doutorado, entitulada "Domestic
and Foreign Advertising in Television and Mass Media Growth:
A Case Study of Brazil", editado pela Microfilm University,
é um exemplo. Em 1990, teve editado pelo jornal A Tarde
e Assossiação Brasileira de Agências de
Propaganda/Capítulo Bahia, o livro "Um Perfil
da TV Brasileira: 40 Anos de História (1950-1990)".
Hoje,
o jornalista, professor aposentado da Facom, poeta, escritor,
pesquisador e músico Sérgio Mattos se lança
num novo desafio: estabelecer no mercado o seu mais novo produto,
a revista de arte, cultura e entretenimento Neon. A Neon,
e vocês irão ler que não foi fácil
nem barato encontrar este nome, está nas bancas desde
janeiro deste ano. É uma revista bonita, bem escrita,
que conta com colaboradores de renome, e, se estabelecida,
será mais um espaço aberto para os profissionais
de imprensa da Bahia. E foi para falar da revista, e de outras
coisas mais, que Sérgio Mattos nos concedeu uma breve
entrevista nas instalações do jornal A Tarde.
Leiam e aproveitem.
1)
A Bahia precisava de uma revista como Neon?
Sérgio Mattos - Na verdade, Salvador já
tem algumas revistas, agora revistas que não são
profissionais; tem muita gente amadora. Sempre que surgem
dois ou três números, param, desaparecem de circulação.
Em toda história da imprensa baiana, você só
vai encontrar uma revista que foi mais duradora na década
de 50, que se chamava Única e que foi feita por Gilberto
Amado; esta se manteve por longos anos. Eu não cheguei
a fazer uma pesquisa estatística na área, mas
teve uma outra chamada Liderança, na década
de 70, que permaneceu até o número 25 ou 26,
e que era mensal também. A partir daí nenhuma
outra sobreviveu, salvo essas mais recentes como a Viver Bahia,
da Bahia Turssa, que era sustentada pelo Governo do Estado,
mas mesmo assim deixou de existir por falta de recursos. E
uma outra revista, não consigo me lembrar agora o nome
dela... ah sim, a revista Panorama, feita em Feira de Santana,
que também acabou. A Panorama de Feira de Santana tinha
uma gráfica que mantinha a revista, mas ela não
foi para a frente, apesar de ter um cunho mais profissional
do que outras. E agora a gente resolveu investir no mercado,
pensando e acreditando na possibilidade de que 5% do PIB baiano
se constitui basicamente de produtos culturais. Quer dizer,
a cultura estabelece empregos diretos e indiretos, principalmente
a música baiana. É uma fatia do mercado muito
grande, a ser explorada, que tem dinheiro circulante, então
tem um mercado que pode sustentar uma revista desse nível.
Decidimos fazer uma revista de arte, cultura e entretenimento,
que você pega justamente todo esse leque.
2) Nas duas primeiras edições, Ivete Sangalo
e Carlinhos Bronw foram capa da revista...
Sérgio
Mattos - Sim, mas não é necessariamente
capa vinculada com entrevista.
3) É uma revista que vai falar mais sobre a música
baiana?
Sérgio Mattos - Não, não. Ela
vai se concentrar nos assuntos temáticos de cada mês,
assuntos que estejam realmente em maior evidência. No
mês de Carnaval não poderia ser outra coisa que
não fosse Carnaval, e janeiro já é pré-Carnaval,
então tínhamos que nos concentrar um pouco mais
sobre isto. Mas este mês, ela vai falar sobre a cidade
de Salvador. A capa, por exemplo, é Tomé de
Souza. Você muda toda uma estrutura em função
do tema em que está trabalhando.
4) E
como está sendo a receptividade do público,
as vendagens da revista? O senhor tem recebido muitas críticas?
Sérgio Mattos - Críticas, elogios, cartas,
comentários, a maioria de espectativas, achando que
a revista está boa, mas nós temos uma auto-crítica
específica nossa; temos analisado os nossos defeitos
e temos notado que a maioria deles é por causa da infra-estrutura,
digamos, pouco adequada, mas estamos fazendo e corrigindo
ou erros de um número para o outro. Quando você
faz o número um, o dois, o três você nota
uma evolução, um aperfeiçoamento, e isso
é normal. Eu acredito que a revista só vai ganhar
um perfil próprio depois que ela tiver mais de um ano.
Ah sim, com relação a receptividade, os números
estão se esgotando. Nós só tivemos acesso
ao primeiro número, para guardar, pois não havíamos
pensado em guardar antes, agora, depois de algumas devoluções
de bancas; não que não tivesse vendido, mas
por causa da chegada do novo número e o recolhimento
do anterior. As pessoas continuam procurando ainda a capa
de Ivete.
5) É
difícil montar uma revista na Bahia e no Brasil?
Sérgio Mattos - Sim. As dificuldades, por exemplo,
na Bahia seriam as da credibilidade e periodicidade. Depois
que você lança uma revista, você tem que
garantir uma periodicidade; se você diz que a revista
é mensal, ela tem que circular mensal. As outras revistas
que existem, por exemplo, se dizem mensais mas circulam assim:
uma em dezembro, outra em abril... . A nossa não, está
saindo mensal mesmo. A grande dificuldade real é você
manter esta periodicidade, você obter a confiança
dos anunciantes para que eles possam anunciar. Se você
tem credibilidade, os anuncios chegam, mas mesmo assim estamos
saindo com o terceiro número e ainda temos muitas dificuldades
em obter anuncios. Até porque as pessoas não
acreditam ainda que a revista está implantada, está
estabelecida.
6)
A revista é algum projeto antigo do senhor, já
tem muito tempo que o senhor queria lançar a revista?
Sérgio Mattos - Na verdade nós passamos
o ano passado todo estudanto esta revista, desde abril. Passamos
o ano todo elaborando o projeto, registro de nome, registro
de empresa, toda a parte burocrática. E o mais difícil
realmente foi obtermos o nome, porque nós chegamos
a relacionar 200 nomes; toda vez que chegávamos com
um nome, o registro já existia. E cada registro desse
custa 20 reais, ou melhor, cada consuta para você saber
se o nome pode ser registrado ou não. Você faz
uma consulta e depois de uma semana ou dez dias o cara lhe
informa se o nome já está registrado pela empresa
tal. Nós passamos o ano todinho nisso, e quando chegamos
em dezembro dissemos: a revista tem que sair em janeiro. De
qualquer jeito, quando chegou em dezembro, conseguimos registrar
o nome Neon, que ainda não tinha.
7)
Folheando a revista, observamos
que ela tem um forte apelo visual. Parece que hoje isso é
uma tendência...
Sérgio Mattos - Mas observe o seguinte: tem
muita gente criticando, principalmente os colegas jornalistas,
que acham que deveríamos ter mais fotos e menos textos
ou textos mais curtos. Estamos dando muita leitura ainda na
revista. E na verdade este é um fator diferencial que
nós escolhemos. Como é uma revista mensal, a
gente espera que as pessoas tenham tempo para ler.
8)
A revista tem uma boa equipe de colaboradores e repórteres....
Sérgio Mattos - Sim, mas na verdade, neste
momento inicial, nós só temos colaboradores.
Os nossos repórteres são prestadores de serviços.
Nós não temos a equipe ainda estabelecida, formada,
porque para você estabelecer uma equipe formada, para
você contratar pessoas, você precisa ter a segurança
de que a empresa já esteja caminhando. E como o negócio
está muito novo ainda, e não temos nenhum grupo
de capitalistas por trás, a gente se reuniu, investimos
nossas economias, e estamos tocando o barco para frente. E
como o custo é alto, estamos preferindo trabalhar com
prestação de serviço. Se você está
disponível para fazer uma matéria, eu lhe contrato,
você faz a matéria, acertamos o preço
e a gente trabalha no pacote.
9)
Uma boa equipe é garantia de sucesso para uma revista?
Sérgio Mattos - Também, também.
No caso nosso, por exemplo, o corpo de colaboradores têm
nome. Todas as pessoas que estão colaborando já
são reconhecidas e aceitas pela sociedade. Então
nós convidamos, as pessoas entraram nessa jogada, alguns
não recebem coisa alguma, e futuramente a gente vem
a pagar a colaboração.
10)
Em 68, o senhor, junto com Ivan Soares, lançou a revista
Experimental. Hoje é a vez da revista Neon. O senhor
poderia estabelecer um paralelo entre estes dois momentos
da sua vida?
Sérgio Mattos - Bom, primeiro, em 1968, estávamos
na faixa dos 20 anos e queríamos mostrar, expor as
poesias que a gente fazia. Então, junto com Ivan, criamos
a revista Experimental. Era uma revista só de poesias;
ela não tinha outra coisa que não fosse poesia.
E ela só durou até o número três,
número crítico de qualquer revista. Só
que esta poderia estar circulando até hoje, mas acontece
que quem bancava era a gente mesmo, então um casou
e o outro casou e ficamos sem dinheiro para poder manter a
revista. Essa revista, naquela época, contribuiu para
o lançamento de 30 poetas baianos...
11)
O senhor, e além de si próprio, poderia citar
alguns?
Sérgio Mattos - Por exemplo, a Aninha Franco,
como poetisa, foi lançada pela minha revista, só
para citar um nome conhecido. E posterior à Experimental,
eu não tive outra experiência com revista salvo
em ter trabalhado em revista. Eu trabalhei na revista Liderança,
quando eu era estudante da faculdade, que foi uma das revistas
que eu citei no início, que durou quase três
anos e era direcionada à classe empresarial; tratava
de negócios, de economia, de publicidade, de marketing,
já naquela época... , então ela tinha
uma circulação muito dirigida, não vendia
em banca. Como a nossa atualmente, a gente está distribuindo
80% porque nós não tivemos dinheiro para fazer
uma campanha de lançamento. Então eu não
posso vender assinatura, não posso dar essa garantia
de que os 20 mil exemplares serão vendidos em banca,
e estamos distribuindo para as pessoas tomarem conhecimento.
Se você consolida o hábito da leitura, as pessoas
depois vão procurar automaticamente nas bancas na busca
de algum assunto que interesse. Portanto, não há
comparativo entre as duas coisas: agora já é
um produto do profissional maduro, comercial mesmo, mas que
também é uma contribuição para
a arte,cultura e o entretenimento, tendo em vista que se você
não faz uma coisa que não seja aceita pelo público,
você não atrai anunciante, e para você
sobreviver precisa de anuncio. A gente está fazendo
uma revista que é cultural, mas com um leque bastante
aberto, que você possa tratar de todas as áreas
da cultura, inclusive as populares, visando a manutenção
dela.
12)
Quando é que Neon vai estar na rede?
Sérgio Mattos - Ah... é possível,
é possível, mas não tenho uma previsão
específica. O tempo que a gente está tendo disponível
está todo conscentrando na produção da
revista. Uma batalha.
13)
E de 68 para cá, o que mudou no jornalismo?
Sérgio Mattos - Mudou muita coisa. Mudou a parte
toda da tecnologia. Um grande boom que teve na década
de 70 para cá foi o offset, que provocou uma transformação
muito forte no jornalismo. Quer dizer, com uma impressão
boa, com a visualização das fotografias, a utilização
de cores, isso acelerou muito. E já nesta última
década foi a tecnologia da informática, que
fez com que o jornalismo se tornasse mais agil, que nós
tivéssemos mais tempo para apurar uma maior quantidade
de notícias. Os jornais de 30, 40 anos atrás
eqüivaliam somente ao que é um suplemento hoje
de um jornal como o A Tarde; o jornal todo tinha oito páginas,
doze páginas, hoje você sai com uma edição
de 60, 80 páginas, que são feitas de um dia
para o outro, com uma tiragem dez vezes superior a de trinta
ou quarenta anos atrás. Isso tudo por causa de uma
tecnologia alinhada que faz com que o jornal avance. Agora
houve também um avanço em termos de conteúdo:
hoje você dispões de profissionais que trabalham
especificamente com jornalismo, se formaram em jornalismo,
estudaram para ser jornalistas. Até a década
de 70, qualquer pessoa que queria ou soubesse escrever ia
para o jornal fazer "bico", as pessoas se sentavam
e escreviam as opiniões dela (era um jornalismo muito
mais opinativo), faziam críticas, mas não apuravam
os fatos. Hoje tem a crítica, as opiniões, mas
existe a apuração dos fatos. Independentemente
de tudo isso, houve um período em que sofremos uma
série de restrições, que era o perído
de censura que foi imposto pelo governo, e depois tivemos
a abertura total. Foram dois massacres, na verdade, que o
jornalismo sofreu: um pela censura do governo, que limitou
a criatividade, limitou o desenvolvimento da imprensa, e depois
quando veio a abertura o pessoal achava que podia falar de
qualquer coisa, então partiu assim com a cara e o peito
aberto, enfrentando tudo, contra todo mundo, denunciando tudo,
e nós pecamos muito nessa fase do tentar passar o Brasil
a limpo, assumindo uma postura, digamos assim, até
infantil. A imprensa pode contrinuir com o desenvolvimento,
pode contribuir para uma porção de coisas, mas
ela na verdade tem que ter o papel da vigilância, ela
tem que estar sempre denunciando sobre os problemas de vigilância.
É como o velho chavão diz: "A imprensa
é o cão de guarda da sociedade". E eu acredito
que essa fase foi ruim para a imprensa, sobre um ponto de
vista, porque diminuiu um pouco a credibilidade que a gente
tinha. Mas se a gente pecou por excesso, pelo menos não
pecou por omissão. Isso foi importante, pois contribuiu
para que a imprensa amadurecesse, que novos profissionais
surgissem, profissionais mais independentes, foi no mesmo
período, nestes últimos 30 anos, que a publicidade
brasileira se profissionalizou mais e que possibilitou à
imprensa ter, por exemplo, maior independência, porque
quando você recebe vários anuncios de várias
fontes você fica mais independente.
14) Como foi a ditadura na Bahia, mais especificamente?
Sérgio Mattos - Foi o mesmo processo. O processo
foi nacional. Aqui nós tínhamos proibições
um pouco mais rígidas do que no Rio e São Paulo,
porque assuntos que eram liberados lá eram proibidos
aqui. Quer dizer, a censura era exercida de uma maneira muito
pessoal; se um delegado da Polícia Federal não
queria, ele não queria e ficava por isso mesmo, e ai
de você se fosse contra. Agora a imprensa baiana eu
acho que evoluiu; se você for traçar um paralelo
em relação a Rio ou São Paulo, a nossa
evoluiu muito mais intensamente do que a deles, porque a gente
tinha um nível muito baixo. Então, a partir
do offset, que chegou na Bahia em 79, com a Tribuna da Bahia,
houve uma melhoria muito mais sensível e notada aqui
do que lá.
15)
Outro dia, o editor de política da Tribuna, Ivan Carvalho,
falava que a situação financeira do jornal está
muito complicada e que eles não podem nem fazer oposição
com medo de perderanunciantes e, consequentemente, perderem
dinheiro. O senhor não acha que hoje existe uma outra
censura, mais mascarada?
Sérgio Mattos - É. Eu tenho um livro
que se chama "Controle dos Meios de Comunicação",
editado inclusive pela UFBA, em que eu trato justamente sobre
isso. A censura policial você conhece porque ela é
exercida pela força, enquanto que a outra censura é
muito mais sutil; é uma censura econômica, uma
censura política. A censura econômica é
a pior que existe,já que você não pode
falar alguma coisa que afete o seu anunciante porque você
tem que garantir a sobrevivência da sua empresa. Por
isso a gente tem que buscar aumentar os nossos anunciantes
para ficar mais independetes.
16)
E o senhor não acha que às vezes a imprensa
censura a própria imprensa. Por exemplo, recentemente
o jornalista da Folha de São Paulo, Juca Kfouri, revelou
o polêmico contrato entre a CBF e a Nike. Ele não
ganhou primeira página e também a sua notícia
não mereceu sequer a mínima atenção
por parte do restante da imprensa...
Sérgio Mattos - Sim, mas você observe
o seguinte: no processo de censura, ou melhor, não
chamaria de censura mas sim de escolha do que se vai publicar,
você começa a fazer a seleção das
notícias na escolha dos assuntos que você vai
trabalhar. Então, se eu chego no jornal pela manhã
e tenho mil assuntos, mas eu só posso escolher 200,
eu já deixei 800 de lado, que não vão
ser publicados. Portanto, já houve ai um filtro muito
grande. Qual foi o critério usado para a seleção
dos assuntos a serem trabalhados?
17)
Sim, mas não se tratava de um assunto importante?
Sérgio Mattos - Mas era importante por que?
Qualquer notícia publicada num jornal é importante,
não importa o tamanho da notícia. Eu posso botar
três linhas no jornal dizendo que os funcionários
de uma empresa pequena vão receber 100% de aumento
e para eles aquela é a notícia mais importante
do jornal, aquelas três linhas, porque diz respeito
à vida deles. Você pode ter uma manchete jornalisticamente
correta e não ser importante para 90% da população.
Então os critérios que são utilizados
hoje na imprensa, pelos jornalistas, talvez precisem ser reformulados.
O que está se questionando hoje não é
mais a censura, a influênca, mas sim os critérios
da utilização dos espaços na mídia,
o filtro que é exercido. Então não adianta
você defender uma série de coisas se onde está
o filto você não reformula. O que se precisa
reformular são os critérios de edição.
Um editor hoje tem uma responsabilidade muito grande: ele
é responsável pelo que faz, é responsável
pela seleção, ele é responsável
por tudo. O que for publicado hoje é o que o editor
escolheu, é escolha pessoal do editor. Você concentra
na mão de uma pessoa muito poder. Por mais ético
que o cara seja, por mais profissional que ele seja, ele vai
se defender sempre e vai dizer "não, eu estou
selecionando de acordo com os critérios jornalísticos".
Então quais são os critérios jornalísticos?
É a proximidade da notícia, a abrangência
da notícia, o número de pessoas que ela atinge,
porque você ai vai vender mais jornais. O critério
é a desculpa de muitos jornalistas. Mas será
que este critério jornalístico é correto?
Será que estamos selecionando exatamente como deveríamos.
Se eu tiver uma notícia ruim e uma notícia boa
e só tiver um espaço, vai a notícia ruim.
Por que não vai a notícia boa? Notícia
boa vende jornal também. Ah, você dizer que descobriram
um avanço para a cura da AIDS é tão importante
quanto você dizer que numa batida morreram dez!? Mas
esse critério mais imediatista, a noção
do que seja notícia num jornal e a que dá mais
repercução é que precisa ser reformulada.
Então hoje nós estamos vivendo, e eu disse isso
há vinte anos passados numa entrevista que dei, a crise
da identidade jornalista permanente. A censura é mito!
É um mito porque a única censura que falamos
é a policial. E a outra censura: você deixa de
dar uma notícia sobre uma pessoa porque esta pessoa
é seu amigo, porque é seu parente, e o leitor
não tem nada com isso. Então, essa reformulação
é uma necessidade do próprio momento em que
estamos vivendo. O terceiro milênio vem ai, vai haver
reformulações terríveis na vida do homem,
e não no sentido negativo, mas sim no positivo, porque
a tecnologia está avançando e vai nos permitir
uma maior quantidade de tempo para você se dedicar ao
lazer, para você se informar cada vez mais, e a partir
do terceiro milênio você tem que praticar um jornalismo
diferente. E eu não acredito acredito, e posso até
aqui dar um chute, que o jornalismo vá virar jornalismo
on-line, como tem muita gente pensando, porque o jornalismo
on-line é muito demorado. Para você ler aquilo
tudo no computador, até o processo de seleção
da notícia no computador, se você não
disponhe do menu para saber o que quer é muito mais
complicado do que você procurar no jornal. No próximo
milênio, eu acredito que o jornalismo vai ser muito
mais um jornalismo revista, porque a maioria dos nosos problemas
hoje vão começar a ser resolvidos, e a gente
vai ter que se adaptar às próximas necessidades.
Daí que você está vendo surgir hoje: a
imprensa especializada. Tem gente que lê jornais e revistas,
mas não qualquer um, ele só lê o que interessa
a ele. Se o cara gosta de surf, ele compra a revista de surf
dele. Cada um vai se especializando, buscando o seu próprio
segmento, então a imprensa vai ter que buscar, que
fazer as coisas de acordo com o que aquele segmento quer.
Você não vai mais falar assim: a grande massa.
Você vai falar de pequenos grupos e direcionar o seu
trabalho para eles, e ai você ocupa um espaço,
pois você vai ter anunciante porque existem os consumidores,
e então você vai ter uma grande multiciplidade
muito maior de ofertas, e você vai poder escolher à
sua vontade. Então vai haver uma mudança na
imprensa; eu não sou profeta não, mas a gente
pode projetar a partir de algumas observações.
Você vai ter no Brasil, por exemplo, alguns poucos jornais
nacionais e o restante voltado para a sua cidade. Por que
perder tanto espaço para dar notícias que não
interessam ? Se ele quiser, vai comprar o jornal local e também
o nacional, como acontece na Europa e nos EUA. Nos EUA você
têm quatro ou cinco jornais nacionais e o resto é
tudo local. E isso é uma tendência.
18)
E fica até mais fácil de vigiar...
Sérgio Mattos - De vigiar?
19)
Sim, de observar os erros e os excessos.
Sérgio Mattos - Não, mas não é
um problema de vigia. A palavra "vigiar" ai me assusta,
porque fica parecendo que fica mais fácil de controlar.
O mais fácil de você fazer um jornal completamente
local é você fornecer à população
na qual você está inserida, é oferecer
a maior quantidade de informações sobre esta
cidade. Porque hoje você deixa de publicar milhares
de coisas porque você está publicando notícias
internacionais, você está publicando notícias
nacionais que não às vezes não interessam
à população local. Quer dizer, isso é
uma coisa muito nova, eu não posso dizer que esse é
um modelo, mas existe uma tendência de você ser
cada vez mais local regional. É o processo de regionalização
que vai atingir, gostem ou não, a imprensa escrita
também, como está atingindo hoje as redes de
televisão que já estão se regionalizando.
Só que elas estão começando o processo
de regionalismo de uma maneira inversa: ao invés de
começar pelo conteúdo eas estão começando
pelo faturamento. Então toda rede de televisão
hoje, na Rede Globo por exemplo, essas emissoras regionalmente
são independentes no faturamento. Elas faturam mais
localmente. Então elas poderiam também reverter
esse quadro e começar a ter maior quantidade de produção
local, e menos nacional. Mas por questões econômicas,
ainda a coisa permanece. Porém a tendência é
a se aumentar a regionalização em todos os sentidos:
o comercial, a produção, a notícia. Quanto
tempo isso vai levar para acontecer eu não sei.
20) E como está o jornalismo municipal hoje, o senhor
que é editor de um caderno de municípios?
Sérgio
Mattos - Já têm 14 anos que a gente faz isso.
Nós fomos pioneiros no Brasil nisso,foi a primeira
experiência regional, municipal, foi esta nossa, depois
os outros jornais fizeram. E essa é uma tendência.
21)
Sim, mas como está hoje os pequenos jornais municipais
que existem no interior?
Sérgio
Mattos - As dificuldades destes pequenos jornais é
de sobrevivência de anúncios. Se você está
numa comunidade muito pequena que o comércio é
pobre ele não tem muito futuro, a não ser que
tenha alguém bancando. Quer dizer, o grande lance dessa
imprensa sobreviver é você ter a confiança
dos anúnciantes, senão você não
anda. Então na Bahia nós temos ai cerca de uns
50 jornais circulando pelo interior, mas são muito
pouco os diários; acho que Ilhéus tem, Itabuna
tem, Conquista, Feira, e o resto é semanal, quinzenal,
mensal. Nos maiores centros da Bahia já têm jornais
diários.
22) O senhor já escreveu vários livros que
tratam especificamente da televisão, inclusive alguns
editados fora do país, como "The Impact of the
1964 Revolution on Brazilian Television". O senhor também
é coordenador do Grupo de Trabalho de Televisão
do congresso da Intercom. Bom, como Sérgio Mattos observa
o envolvimento de grandes emissoras de TV em negócios
mirabolantes como na compra das teles? Isso não prejudica
o jornalismo destas emissoras, tornando-o cada vez menos parcial?
Sérgio Mattos - Olhe, você tem que ver
o seguinte: uma emissora de televisão não é
necessariamente só jornalismo. Ela tem a parte de jornalismo
e a parte de cultura, e a parte de educação.
Hoje a televisão brasileira é muito mais cultural
do que qualquer outra coisa, 90% ou mais é cultura.
Educação mínimo, informação
mínimo.
23)
E qualidade tem?
Sérgio Mattos - Não, qualidade a televisão
brasileira tem. Tem qualidade de produção melhor
que a americana.
24) Sim, mas eu estou me referindo à qualidade
dos programas...
Sérgio
Mattos - Sim, mas isso é também uma outra
tendência. Agora que você está vendo um
avanço da televisão paga, a televisão
brasileira vai se nivelar por baixo, porque não há
mais necessidade deles investirem tanto para ganhar audiência,
que vai ser uma audiência mínima pois todo mundo
vai preferir a outra, que é uma coisa que já
foi verificada em outros países. Elas vão ficar
todas niveladas e o diferencial vai ser o anunciante que eles
vão buscar, mas que está justamente na televisãp
paga, onde o telespectador tem maior poder aquisitivo. Não
significa que eles vão deixar de ganhar dinheiro, mas
ai vão deixar de investir na qualidade dos programas.
Então, os programas mais barator e mais fáceis
são os de auditório. Se você chega na
televisão americana, você vê o dia inteiro
programa de audiório. É só game show
e mais nada.
25) Voltando ao assunto, não é proibido que
as emissoras invistam em vários setores e criem monopólios?
Sérgio Mattos - Proibido vírgula! A gente
tem que ver ai o problema legal, que permite a existência
de monopólios. Estão permitindo que um grupo
de televisão tenha jornal e televisão na mesma
cidade, que tenha TV a cabo, pois estão preocupados
mais com outras coisas... . E esse monopólio é
que é perigoso, e não o monopólio de
audiência, e é isso que precisa ser reformulado
na Constituição. Acusar a Globo de que ela está
tendo mais audiência que as outras..., ela tem mais
porque ela está sendo mais eficiente. A Constituição
não proibe, ela não olha a coisa como um grupo.
Assim você tem jornal, rádio e televisão
na mesma cidade, e mais companhia de informática, satélite,
companhia telefônica, tudo na mão do mesmo grupo.
26)
O senhor foi aluno da Facom, se formou lá e depois
foi professor da unidade e se aposentou em 1997. Qual a avaliação
que o senhor, com a sua experiência, faz da nossa Faculdade
de Comunicação?
Sérgio Mattos - Bom, nós temos hoje uma
faculdade que melhorou muito em todos os níveis, não
só o nível do corpo docente. Desde a época
que eu fui estudante os profissionais que ensinavam eram os
melhores da cidade; eram jornalistas, advogados, médicos,
que exerciam a profissão de jornalismo e passaram a
ensinar. O alunado melhorou: naquela época, fazer jornalismo
era coisa de maluco, era coisa de poeta, de gente que não
conseguia passar em outro canto mas que passava em jornalismo,
e hoje não. Para você entrar na faculdade hoje
é uma competição muito grande, pois é
um dos cursos mais procurados. Então, no processo seletivo
do alunado, você já teve uma melhoria. Se você
melhora o produto que entra, obrigatoriamente você tem
que melhorar quem está ensinando. Você tem dentro
da UFBA hoje um grupo de professores extremamente competentes
em suas respectivas áreas. Nós estamos hoje
na Facom com um exelente nível em relação
às outras faculdades, e inclusive eu acho que a nossa
Facom aqui é melhor que o curso de jornalismo da USP.
Eu só acho que a gente deveria se conscentrar um pouco
mais na graduação.
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