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Entrevista concedida por
Sérgio Mattos à repórter Chistina Abelha,
do jornal A GAZETA, de Vitória do Espírito Santo.
A reportagem foi publicada na edição do dia
25 de maio de 1992, primeira pagina do Caderno Dois.
"IMPARCIALIDADE
É MITO"
1) Quais os aspectos positivos da evolução
da televisão brasileira nesses 40 anos?
Sérgio Mattos - São
inúmeros os aspectos positivos da televisão,
mas um dos mais importantes é o papel de integração
nacional que ela promove. O Brasil é um país
de dimensões continentais o que torna difícil
a manutenção de uma unidade inclusive de linguagem.
Ao tempo em que a existência de uma única língua,
o português, foi importante para o desenvolvimento inicial
da TV entre nós, a televisão hoje contribui
para manter esta unidade lingüística, apesar dos
padrões culturais adotados e impostos a todo o país
ser o padrão produzido no sul maravilha.
2) E os negativos?
Sérgio Mattos- Seguindo
a mesma linha de raciocínio, diria que os aspectos
negativos também são inúmeros, mas podemos
destacar alguns. Por exemplo: devido ao poder de sua penetração
em todo o território nacional a televisão foi
manipulada pelos governos militares no sentido de manter o
status quo, reproduzindo para a massa a ideologia dominante.
Traçando ainda o mesmo paralelo com relação
à língua e à cultura podemos destacar
que um dos principais aspectos negativos da televisão
brasileira é o da homogeneização da cultura,
valorizando a do sul em detrimento das culturas regionais,
que são ricas e variadas.
3) Como se deu a nacionalização
da programação da TV brasileira?
Sérgio Mattos - Esta é
uma pergunta complexa. Isto porque nos primeiros anos da existência
da televisão tínhamos uma programação
totalmente local e nacional e, porque não dizer, com
alguns programas de alto nível cultural. O processo
de desnacionalização dos programas aconteceu
basicamente por dois motivos: O primeiro deve-se à
efetivação do golpe militar de l964, quando
os artistas e intelectuais brasileiros viviam um movimento
de conscientização e de reformas sociais (era
época da bossa nova, do tropicalismo, do cinema novo,
etc.) que se traduzia num movimento de postura muito crítica,
cuja produção (fosse na área teatral,
do cinema ou da música) não interessava ao poder
constituído. Aí, a censura funcionou com muito
rigor e foi estimulada a utilização de programas
estrangeiros, principalmente dos "enlatados" americanos,
que não trariam problemas ideológicos nem para
os governantes nem para os proprietários das emissoras.
Os programas importados ainda tinham a vantagem de serem mais
baratos. O segundo motivo a facilitar a desnacionalização
foi a tecnologia. Com a chegada de equipamentos sofisticados
como o videoteipe e o telecine ficou mais fácil para
a televisão utilizar-se de filmes estrangeiros uma
vez que os nacionais, com uma característica muito
política, estavam proibidos de serem transmitidos pela
televisão.
Podemos observar que, na verdade, a televisão brasileira
nasceu com uma programação totalmente local,
enveredou a partir de l964 para uma programação
"enlatada" e só a partir do final do governo
Médici, quando o governo começou a se preocupar
com a violência dos programas americanos foi que uma
luz se acendeu no fim do túnel e começamos a
produzir programas nacionais que contaram com subsídios
oficiais (empréstimos bancários e outras facilidades)
para fazer frente aos custos de produção. Dentro
disto, vale lembrar que a nacionalização mesmo
da nossa programação foi efetivada a partir
do governo do Presidente Ernesto Geisel, quando o Brasil passou
a adotar uma política internacional independente da
orientação norte-americana e uma política
interna cada vez mais nacionalista. Os reflexos da política
adotada pelo governo Geisel atingiu inclusive o setor da indústria
publicitária nacional, quando as dez maiores agências
em operação no país também deixaram
de ser agências estrangeiras. Foi a partir de 1975 que
as nacionais passaram a ocupar os primeiros lugares do ranking
nacional de agências de publicidade.
4) Como funciona a censura hoje na
TV?
Sérgio Mattos - Hoje (1992),
graças à promulgação da Constituição
de 5 de outubro de 1988, os meios de comunicação
de massa do Brasil estão vivendo uma fase de liberdade,
pois não temos censura nem mesmo na televisão.
O que existe hoje (1992) e que muita gente confunde com censura
é um sistema de classificação dos programas
de televisão, fato que existe também nos países
mais democráticos do mundo. Compete ao Ministério
da Justiça classificar os programas quanto ao conteúdo,
sem qualquer corte, indicando apenas o melhor horário
para transmissão. Se um pai achar que seu filho, menor
de idade, pode assistir um programa, classificado para adulto
e que só pode ser transmitido depois das 22 horas,
este é um problema interno da família. O que
o governo fez foi cumprir uma de suas finalidades, o de regulamentar
a utilização do veículo e mesmo assim
atendendo às pressões de vários grupos
da sociedade (associações de pais, educadores,
igreja etc.).
6) Há uma afirmação
em seu livro (Um Perfil da TV Brasileira) sobre a característica
inicial da TV como veículo publicitário. A TV
hoje conseguiu minimizar ou modificar esse quadro?
Sérgio Mattos - O que eu
digo no livro é que desde o início a televisão
apresenta todas as características de um grande veículo
publicitário e ele mantém, ainda hoje as mesmas
características, sendo que algumas delas foram aperfeiçoadas.
A televisão é hoje o nosso maior e mais importante
veículo publicitário porque é capaz de
difundir uma mensagem a um público potencial estimado
em mais de 90% da população num mesmo dia e
hora. Para tanto este público não precisa nem
saber ler. Além do mais, uma campanha publicitária
veiculada através da televisão facilita o trabalho
das agências de publicidade que precisam apenas manter
contatos com cinco ou seis emissoras geradoras e decidir a
veiculação em todo o país através
de suas respectivas redes formadas pelas estações
afiliadas. Não é à toa que a televisão
brasileira abocanha 60% de todo o investimento publicitário
do país.
7) Como a TV conseguiu tornar-se independente?
Sérgio Mattos - Dentro de
um regime democrático e capitalista, quanto maior for
o número das fontes de renda de um veículo,
maior será sua independência em relação
ao Estado, e menores serão as influências do
poder econômico sobre aquele veículo. Se olharmos
a situação sob este ponto de vista poderíamos
ainda dizer que quanto maior for o faturamento da empresa
de comunicação mais independente é o
veículo. Entretanto, quando se fala de televisão,
só quem pode ser classificada como independente, devido
ao alto faturamento, é a rede Globo. Mas quando falamos
da independência do veículo como um todo, temos
de lembrar que a televisão brasileira é ainda
dependente de hardware e de software e que também importamos
muitos programas para atender a nossa deficiência de
produção de programas em larga escala.
8) Como você classifica nossos
noticiários? As notícias que são veiculadas
são manipuladas? Assistimos a um outro Brasil?
Sérgio Mattos - Os noticiários
de nossas principais redes podem ser considerados tecnicamente
como de bom nível, embora quanto ao conteúdo,
sejam discutíveis. Os noticiários são
muito superficiais e estão mais preocupados com os
índices de audiência registrados pelo IBOPE do
que com a função de bem informar e orientar
o telespectador. Outras falhas existentes nos noticiários
das principais redes têm a ver com o processo de edição
e a linha política-editorial traçada por seus
proprietários. É por isso que uma mesma notícia
pode ser apresentada (leia-se, editada) de maneiras diferentes
em nossas redes. A Globo pode apresentar o fato mais superficialmente,
enquanto a SBT ou a Manchete pode fornecer maiores detalhes
do mesmo fato. Com relação ao questionamento
se assistimos um Brasil diferente, diria que, na época
dos governos militares, quando a censura era ativa, o noticiário
só mostrava o que o governo queria que a população
soubesse. Hoje, após a Constituição de
1988, o noticiário da televisão também
está livre de censura e pode mostrar qualquer coisa,
até os "Aqui, Agora" da vida. E, devido a
este ar de liberdade, é que o outro lado do Brasil,
antes tão colorido, agora também é mostrado
no noticiário, com saques, assassinatos, miséria
e denúncias de corrupção política.
A verdade é que a notícia nem sempre é
colorida e, no momento ela vem se apresentando como é,
e isto tem chocado alguns telespectadores mais conservadores.
Se a violência que é mostrada no noticiário
de televisão deve ser mostrado nua e crua ou não,
é outro problema...
9) Trace o perfil do telespectador.
Se necessário, divida por faixas.
Sérgio Mattos - Traçar
um perfil do telespectador brasileiro assim seria uma irresponsabilidade.
Existem institutos de pesquisa sérios no Brasil que
fazem este trabalho baseado em levantamentos sistemáticos,
identificando e classificando o telespectador quanto ao sexo,
idade, escolaridade e classes sociais. Baseados nestas informações
as agências de publicidade decidem em que programa vão
anunciar os produtos de seus respectivos clientes. Assim,
geralmente, os produtos de limpeza, higiene e beleza são
anunciados nos programas destinados ao público feminino.
Os produtos a serem consumidos por crianças são,
invariavelmente anunciados em programas infantís tipo
Show da Xuxa, Mara Maravilha, etc.
10) Qual o motivo da sua visita a Vitória,
do Espirito Santo?
Sérgio Mattos - Estive em
Vitória por motivos profissionais. Como jornalista,
editor do suplemento agrícola do jornal A TARDE, da
Bahia, estive visitando o projeto da Aracruz Celulose, uma
empresa que vem investindo muito no extremo sul da Bahia no
que diz respeito ao plantio de florestas homogêneas.
Como não poderia deixar de acontecer, aproveitei os
momentos livres para manter contatos com a imprensa local,
conhecendo de perto seus avanços tecnológicos,
como é o caso deste jornal, A GAZETA, que, graças
à visão empresarial de Carlinhos Lindemberg,
tem realizado investimentos na área da informatização
tanto no jornal como na emissora de televisão que o
grupo possui. Como estudioso e pesquisador dos meios de comunicação
de massa no Brasil, conhecer os nossos veículos é
uma curiosidade natural.
11) A imprensa manipulou e foi manipulada
durante as guerras? Em quais guerras, ela manipulou e em quais
foi manipulada?
Sérgio Mattos - A pergunta,
acredito, refere-se ao tema de um dos meus livros, "Censura
de Guerra", não é?. Pois bem, a resposta
é simples e direta: A imprensa sempre foi manipulada
em todas as guerras, mesmo na do Vietnã quando os jornalistas
tiveram mais liberdade de atuação, mas, no momento
da edição sempre prevalecia a visão oficial
fornecida em Washington em detrimento do despacho remetido
pelo correspondente de guerra que não podia ser checado.
Na dúvida, os editores publicavam a versão oficial.
Durante a mais recente guerra, a do Golfo Pérsico (1991),
também conhecida como "Operação
Tempestade no Deserto", os meios de comunicação
de massa foram usados e manipulados pelos dois lados, que
deixaram os jornalistas no meio das ações sem
condições de fazer qualquer opção.
12) Os correspondentes de guerra têm
o papel de espiões?
Sérgio Mattos - Não.
O papel do correspondente de guerra é transmitir aos
seus leitores detalhes do que se passa no campo de batalha.
Entretanto, devido aos interesses estratégicos dos
militares e à censura que é exercida durante
períodos de conflitos armados, a primeira vítima
de uma guerra é sempre a verdade.
13) O saldo da participação
da imprensa nas guerras durante todos esses anos, pode ser
considerado positivo?
Sérgio Mattos - Não.
O balanço tem sido sempre negativo, não apenas
pela quantidade de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas
que morreram ou foram seriamente feridos como também
pelos danos causados à credibilidade da imprensa. A
cada guerra que passa, mais a imprensa fica desacreditada
pela população que identifica os enganos, as
deturpações dos fatos, mas não fica sabendo
que tudo o que leu, ouviu ou viu foi censurado por um ou até
mesmo pelos dois lados em conflito, como ocorreu durante a
guerra do Golfo. Naquela guerra, a única transmissão
que não sofreu os cortes da censura iraquiana foi a
que o Peter Arnet, da CNN, conseguiu fazer, mostrando os estragos
produzidos pelo ataque aliado a um abrigo público da
Defesa Civil, quando morreram mais de 400 civis. Aquela transmissão,
entretanto, sofreu alguns vetos por parte da censura norte-americana.
14) O senhor acredita que pode se atribuir
culpa à imprensa por derrota numa guerra?
Sérgio Mattos - Poder não
pode, mas sempre procuram culpar a imprensa pelos fracassos.
Foi assim na Guerra do Vietnã e exatamente por isso,
desde então, a imprensa tem sido controlada e manipulada.
Usada até como estratégia militar para enganar
o inimigo, como ocorreu no Golfo, quando os jornalistas assistiram
a operação limpeza do mar, realizada por homens
rãs que desativaram quase todas as minas colocadas
na área pelos iraquianos. Toda uma propaganda foi feita
procurando mostrar o local onde possivelmente ocorreria um
desembarque, o que forçou as tropas iraquianas a deslocarem
tropas para uma certa área quando a invasão
ocorreu em outra parte, na retaguarda. Na divulgação
da operação limpeza a imprensa foi utilizada
e cumpriu direitinho o papel que os militares queriam.
Com relação à culpa da imprensa, vale
dizer que, no momento, a imprensa mundial, incluindo-se aqui
também a brasileira, vive um momento de extrema delicadeza,
pois devido a esta síndrome de transferência
de culpa, tudo o que não funciona ou não está
dando certo, é por culpa da imprensa. Aqui no Brasil,
quando o governo erra, quando um político perde a eleição,
o deputado não consegue aprovar seu projeto, a culpada
é sempre a mesma: a imprensa. Será que a imprensa
é mesmo responsável pelas guerras que não
decidiu fazer? Pela incompetência de um governante ou
a inabilidade de um político? Claro que não,
mas como compete à imprensa exercer a sua função
fiscalizadora (de cão de guarda da sociedade), ela
incomoda. Por isso estamos sofrendo uma verdadeira campanha
para nos desacreditar junto aos nossos consumidores. Compete
ao jornalista lutar para restabelecer a credibilidade e isto
só será possível com competência,
seriedade e honestidade profissional.
15) Quando a liberdade de imprensa
pode ser considerada nociva em uma guerra?
Sérgio Mattos - Sob o ponto
de vista da estratégia militar isto pode ocorrer todas
as vezes em que a liberdade de imprensa ponha a segurança
da nação em risco. Entretanto, mesmo este argumento
pode ser questionado hoje em dia, quando os exércitos
dispõem da ajuda tecnológica de satélites
sofisticadíssimos para saber tudo sobre o inimigo.
Não seria, portanto, a divulgação de
perdas ou da quantidade de soldados, navios e aviões
que um país dispõe que impedirá o inimigo
de saber estas informações.
16) Que funções sociais
desempenham ou deveriam desempenhar os jornalistas, através
da mídia impressa e eletrônica? Qual é
o seu ponto de vista, após esta analise?
Sérgio Mattos - O jornalismo
tem quatro funções sociais básicas a
desempenhar não necessariamente nesta ordem: educar,
informar, divertir e fiscalizar. Só desempenhando estas
funções com seriedade é que os jornalistas
conseguirão resgatar a credibilidade da imprensa que
está muito abalada. Esta queda de credibilidade é
que está levando o jornalista a entrar numa crise de
identidade. É necessário que o jornalismo nacional
faça uma autocrítica a fim de identificar novos
rumos a seguir, procurando valorizar cada uma das funções
sociais que tem o dever de cumprir, sem deixar de considerar,
contudo, que liberdade de informação não
significa democratismo e que para haver democracia plena todos
têm que requerer seus direitos, cumprindo também
os seus deveres.
17) Por que a preocupação
militar com a imprensa, em caso de guerra? Não é
exagero considerá-la maldita?
Sérgio Mattos - A preocupação
dos militares com a imprensa é uma preocupação
histórica. Eles reconhecem o poder da comunicação
e o que se pode fazer com a informação. Isto
porque como disse Jeremias Gotthelf, no início do século
passado, "a palavra é infinitamente mais poderosa
do que a espada. Quem a souber manejar é muito mais
poderoso do que o mais poderoso dos reis". Com relação
à segunda parte da pergunta, só tenho a dizer
que também acho um exagero considerar a imprensa maldita
em época de guerra. Mas só se entende porque
a chamam de maldita quando se identifica quem a denominou
assim e porquê. Geralmente é porque ela divulgou
pseudo segredos daqueles que passaram a denominá-la
de maldita. É pura dor de cotovelo.
18) A verdadeira história de
muitas guerras ainda não foi contada? Temos muitas
histórias de guerras inéditas?
Sérgio Mattos - A verdadeira
história da guerra...é difícil dizer
o que é verdadeiro em época de guerra. Isto
porque a história é escrita pelo vencedor. Entretanto,
alguns anos após o conflito sempre aparecem documentos,
antes secretos e guardados a sete chaves, ou declarações
de ex-militares e ex-políticos que contribuem para
esclarecer certos fatos que haviam sido divulgados pela imprensa
e negados veementemente pelos governos envolvidos. Alguns
deste fatos levaram jornalistas e/ou empresas jornalísticas
a sofrerem verdadeiras perseguições, sendo considerados
traidores, julgados e condenados. Anos depois sempre se esclarece.
É como diz o dito popular, mais cedo ou mais tarde
a verdade sempre chega. Baseado neste ponto de vista só
podemos dizer que ainda temos muitas coisas a serem esclarecidas
com referência a muitas guerras, inclusive sobre a última,
a do Golfo Pérsico, em 1991.
19) Quando a verdade deixou de ser
a "tradicional vítima" da guerra?
Sérgio Mattos - Nunca. Em
todas as guerras, conflitos e revoluções a verdade
sempre foi a primeira vítima.
20) Como o senhor vê o mito da
imparcialidade do jornalista?
Sérgio Mattos - Como a sua
própria pergunta classifica, a imparcialidade é
um mito. Entretanto compete ao jornalista atuar dentro da
ética, procurando sempre dar os diversos lados da questão,
fornecendo ao leitor todos as informações necessárias
para que ele mesmo possa decidir que versão apoiar.
Isto não significa que o jornalismo não deva
opinar. Pelo contrário: compete também ao jornalista
argumentar, apresentando todas as versões, a fim de
fundamentar inclusive a sua própria opinião
a favor ou contra determinado fato. Para tanto, ele tem que
executar bem a tarefa de levantamento de todos os dados para
que seu trabalho não venha a ser identificado com uma
investigação mal feita. Tudo depende do profissionalismo
e da capacidade de mobilidade do jornalista. Para bem executar
suas tarefas ele tem que estar preparado e bem informado.
O jornalista costuma cobrar muito a negligência de outros
profissionais da sociedade, mas não costuma apurar
suas próprias negligências. O jornalista pode
até cometer erros, pois errar é humano. Mas
o que não pode é pecar por omissão.
21) Nos tempos de abertura política
que vivemos, no Brasil, apesar das guerrilhas urbanas, temos
liberdade de imprensa?
Sérgio Mattos - Desde o
governo da Nova República, de José Sarney, que
vivemos uma fase de transição democrática.
Apesar da Constituição de 1988 garantir plena
liberdade de expressão e de não termos mais
a execução da censura prévia ainda não
aprendemos direito o que é viver em completa liberdade,
pois a liberdade não significa só "o venha
a nós ao vosso reino nada". Significa uma via
de mão dupla, onde existem direitos e deveres e a imprensa
tem que saber quais são os seus direitos e quais os
seus deveres para poder exercer esta liberdade em toda a sua
plenitude, resgatando a nossa credibilidade afim de que possamos
também dar a nossa participação no desenvolvimento
da nação.
22) A auto-censura do profissional
de comunicação é única e exclusivamente
resultado de uma cultura militar adquirida nesses 21 anos
de ditadura?
Sérgio Mattos - O regime
de exceção já acabou. Não precisamos
continuar vendo fantasmas em todo canto. Mas a auto-censura
não pode ser apenas creditada àquele período,
pois ainda hoje nos defrontamos com ela em situações
variadas. Na verdade, a auto-censura é fruto também
da incompetência ou da falta de segurança do
profissional. Além disto, a auto-censura pode também
ser motivada pelo comprometimento político-ideológico
ou econômico da empresa ou do profissional em questão.
Este é um outro tema, de caráter ético,
que deve ser melhor refletido pelos profissionais de imprensa.
A autocrítica pode ajudar muito os caminhos que a imprensa
brasileira vai trilhar no futuro.
23) Os veículos de comunicação
vêm cumprindo o seu papel?
Sérgio Mattos - Dentro do
possível, os veículos de comunicação
de massa do Brasil têm procurado cumprir com o seu papel.
Em alguns momentos com uma presença extremamente lúcida
e em outras com posições equivocadas fruto da
pressa que continua sendo a maior inimiga da perfeição.
24) Quais as cores que nós,
profissionais da mídia impressa e eletrônica,
pintamos deste Brasil?
Sérgio Mattos - Tem um chavão
jornalístico que diz que a imprensa é um reflexo
da sociedade. No nosso caso, mesmo com pequenos borrões,
estamos pintando um Brasil com as cores com que ele se apresenta,
ou seja, nem sempre a verdade é colorida...
25) Existe maior liberdade de imprensa
na mídia impressa ou na eletrônica? Há
diferenciação?
Sérgio Mattos - A mídia
impressa trabalha com espaço, enquanto a mídia
eletrônica trabalha com tempo. Dentro deste conceito
de tempo e espaço a liberdade e/ou a verdade é
uma só, nem deve ser considerada de maneira diferente.
O que existe é mais tempo ou menos espaço, mas
a liberdade deve ser tratada com a mesma seriedade.

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